Sexta-feira, 14 de Julho de 2023

o leitor (im)penitente 212

Kundera, um europeu, um grande escritor e um homem de coragem

mcr, 13-7-23

 

A morte de milan Kundera não apanha ninguém desprevenido. A idade (94 anos) era muita e se alguma coisa nos surpreende é a sua longevidade.

De todo o modo deixa uma obra notabilíssima e pode ser apontado como um dos grandes romancistas do século passado. 

Teve, para além das vicissitudes da escrita que é sempre uma companheira difícil, uma vida de cidadão que, no mínimo, se pode caracterizar de complicada. 

Nascido no Leste europeu, mais precisamente na Checoslováquia, viu o seu país ser implacavelmente agredido  por Hitl e por duas vezes. Na primeira (e com a cumplicidade da maioria da população de origem alemã estabelecida nos Sudetas e depois com a pura e simples invasão e semi-anexação do resto do país.

A”libertação” operada pelo Exército Vermelho no seu impetuoso avanço contra Berlin foi sol de pouca dura. Ficou como um clássico da conquista do poder por dentro a teoria dita do “golpe de Praga”. 

Convirá lembrar que boa parte dos intelectuais checos apoiaram ou, pelo menos, não se opuseram ao golpe comunista contra um Governo livremente eleito e de características demo-liberais. As razões são várias mas a principal foi a miserável anuência da Inglaterra e da França (e o silêncio cúmplice de quase todos os outros europeus)  às exigências de Hitler. Não admira que a URSS entre 45 e 48 se tivesse tornado aos olhos de muitos o garante de uma liberdade que cedo se mostrou implacável. 

Se Kundera aceitou ou até defendeu essa reviravolta, não faço a mínima ideia se bem que tudo indique que enquanto militante comunista a defendeu. Todavia, poucos anos depois foi pela primeira vez expulso do PC checo. Readmitido alguns anos depois, de pouco durou essa renovada crença nos benefícios do poder dito socialista. 

E é de um dos seus primeiros romances que vale a pena falar pois a critica ao regime e aos constrangimentos que impunha for irónica mas expressivamente revelada em “A brincadeira”, livro que descobri pouco antes da “Primavera de Praga”, já Kundera voltara a ser expulso do partido. Não admira que durante esses exaltantes meses de 68 ele se tenha distinguido como um dos principais apoiante da tímida tentativa de Dubcek e que depois, com o regresso da “ditadura do proletariado” à moda soviética, a vida se lhe tenha tornado impossível no país Natal. 

Kundera exila-se, vai para França e é daí que a sua obra vai ganhando espessura e a sua famas e consolida. O Nobel , como sucede a tantos, não o distinguirá e não deixa de ser curioso que quando se lembraram da literatura checa preferiram premiar Jaroslav Seifert (poeta de resto excelente mas quase desconhecido fora do seu país) esquecendo os grandes romancistas de que apenas cito Hrabal outro opositor ao governo checo. 

A  propósito Borges, que à época teria 85 anos, terá afirmado que “felizmente a academia sueca tinha premiado um jovem  (de 84 anos). 

É conhecida a simpatia de Kundera por alguns autores que fazem muito parte cá de casa, Rabelais ou Hasek o imortal pai de Schveik  esse absurdo anti-heroi que mereceu mesmo uma espécie de continuação servida por Brecht.

Desconheço se a última edição  portuguesa do “Bom Soldado...” já está conforme com o original. De facto, este livro memorável, foi publicado em Portugal (Portugália, 1961) numa edição provavelmente baseada na francesa e consideravelmente reduzida. Mais tarde, depois de comprar vários acrescentos em várias línguas cheguei finalmente a uma edição espanhola da “galáxia gutemberg” com 765 páginas que está completa pois compreende os últimos textos do “soldado” (fins de 1922. Hasek morreu a 3 de Janeiro do ano seguinte ).

Tudo isto para lembrar que à semelhança de Hasek, Kundera foi alvo de traduções um pouco “olé, olé” que o obrigaram mais tarde a ser ele próprio o seu tradutor para francês.

Do mesmo mal padeceu Rabelais que foi traduzido do seu gostoso mas difícil francês do sec.XVI para o francês moderno sofrendo também de consideráveis dentadas. Esperemos que a tradução que agora se anuncia para português. seja realmente integral.

 (e confesso que provavelmente não resistirei a mais esta edição mesmo tendo uma boa meia dúzia delas todas em francês original ou moderno )

Quem me lê habitualmente sabe que aqui apenas se referem livros e autores lidos mas sem qualquer aparato crítico.  Deixei-me disso há muitos, muitos, anos e basta-me chamar a atenção para os livros sem pôr já óculos escuros ou claros aos leitores que não precisam de críticas para ler os livros.

Isto é só um folhetim, um escrito efémero nada mais.

publicado por d'oliveira às 19:46
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Domingo, 21 de Novembro de 2021

o leitor (im)penitente 225

Para acontecimento, é um dos grandes.

Enorme!

mcr, 21-11-21

 

 

 

20.000 páginas! 1.700.000 palavras. 700.000 ocorrências! 

Estes três números dizem muito, mesmo muito, da obra que pelos vistos aparece agora em e-book

São os diários de Salazar, 35 anos, dia pós dia. Nove anos de trabalho de uma abençoada arquivista, uma senhora arquivista, de seu nome Madalena Garcia.

 

Mesmo que em livro o número de páginas desça para metade, vá lá um terço, quiçá um quarto,  teríamos no mínimo, 5000 páginas, isto também é tudo em função do tamanho da letra, claro. 

É evidente que, para nós, leitores vulgares e mais interessados na “carne da perna” talvez três mil páginas chegassem.

Todavia que está aí um trabalho colossal , está, E de que maneira, tanto mais que a letra do eremita de Santa Comba Dão não parece ser “pera doce”. 

Eu, que vivi 33 anos (quase tantos quantos os cobertos pelo diário...) sob a férula da criatura, tenho uma enorme curiosidade por saber deste dia-a–dia minucioso e íntimo, sem filtros nem considerações de posteridade.

É que são raras as obras históricas que abordem o homem e o político desapaixonadamente, factualmente sem o peso da admiração babada ou da inimizade ideológico. 

Eu sei que o que peço é difícil, provavelmente quase impossível mesmo quase sessenta anos depois da morte do ditador. Uma das raras aproximações a um narrativa menos agressiva ou hagiológica é devida a Ribeiro de Meneses, um historiador radicado (suponho) no Reino Unido. Depois, há estudos esparsos, aqui e ali, que trazem aboradagens cautelosas a diferentes aspectos da sua política. E a documentação em bruto, sobretudo as “Cartas”, menos os “Discursos” que eram longamente meditados para o presente e para ..o futuro. 

Dir-se-á que o mesmo ocorre com outros líderes mundiais ou portugueses (e destes poucos há como de costume)

Oitenta por cento da 1ª República está por esclarecer e estudar, pior só mesmo com a defunta fase final da Monarquia. Do Estado Novo, dos seus próceres também não aparecem estudos em quantidade e, sobretudo, em qualidade. Ou então, mesmo se escassas, há um par de hagiologias sobre alguns políticos que prepararam ou fizeram o 25 A e os primeiros anos do novo regime. Pelos vistos ainda é cedo!

Por isso este gigantesco esforço da dr.ª Madalena Garcia merece aplauso e gratidão. 

Até eu, um info-excluído vicioso, terei de fazer o esforço de tentar desbravar o tal e-book esperando que ele apareça. Não faço sequer ifeia de deverei comprar um maquinismo que permita ler com comodidade e letra bem grande a coisa. Ou, pior, se me atreverei. Por mim, um resumo das partes mais interessantes já bastava desde que o/a autor/a fosse de confiança. De todo o modo, aí está u instrumento fundamental para ajudar a fazer a história de um período da vida nacional e também de da vida de uns dois/três milhões de portugueses, os que ainda sobrevivem dessa época sombria que, de certo modo, ainda “assombra” a nossa história actual. 

 

(um leitor "desconhecido" fez-me uma pergunta. Respondi longamente e perdi (!!!) a resposta ! Vou tentar reescrever o que então dizia e publicarei esse texto logo que possível. Ainda tenho a vaga espeança de o encontrar. Alguém me dá uma dica?)

 

publicado por d'oliveira às 12:02
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Segunda-feira, 15 de Maio de 2017

o leitor (im)penitente 202

Rufino criados.jpg

Livros, alfarrabistas & outras fantasias 8

(“Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique”)

Os livros são uma aventura sem fim, uma viagem sem bússola, um desvanecer de dinheiro pior do que consumir cocaína. O leitor voraz, nunca está satisfeito. Pede sempre mais e mais, quer tudo e mais alguma coisa, o que faz lembrar aquele cavalheiro medievo, Pico della Mirandola que, diz-se, sabia tudo e mais alguma coisa. Morreu cedo de tanto ler, mas não de tresler, deixando uma obra copiosa salpicada, nalguns casos (13!, número aziago!) de heresia de que, contrafeito, teve de abjurar. Pico lia tudo, comprava tudo o que corresse escrito e discutia tudo. Hoje, poucos o conhecem e menos ainda o leem (é o meu caso...) mas o homem, segundo a biografia que lhe dedicou um sobrinho, era da raça dos génios.

Rufino_LM_Praia_Polana_1.jpg

A que vem esta lengalenga mirandoliana se o que pretendo é falar de um certo Rufino, fotógrafo e africanista, autor de dez gordos volumes pejados de fotografias sobre a colónia de Moçambique em 1929?

Pois apenas isto, o senhor José dos Santos Rufino por razões que não enxergo, resolveu, naquela data, arriscar muito dinheiro na publicação dos “Álbuns...” Não vislumbro que, à época, lhe sobrasse freguesia suficiente na colónia (em 1929, Moçambique era, oficialmente, colónia, abandonada que fora a designação de província ultramarina dos tempos da monarquia). Também duvido que, na Metrópole, houvesse uma multidão de entusiastas coloniais que compensasse o esforço e os gastos da edição. É que se trata de algo luxuoso, caro, fotografias algumas vezes enormes, tratadas, reveladas e editadas na Alemanha pela renomada firma Broschek & Co. (Hamburgo). São dez volumes oblongos (22x29cm) que no conjunto hão-se contar mais de mil fotografias, algumas em página dupla. A obra encerra fotografias das localidades mais importantes (Lourenço Marques, Beira, Tete, Quelimane ou Moçambique -mas não Nampula, na época um lugarejo sem importância -), instalações portuárias, comerciais, agrícolas e industriais, fauna, flora, arquitectura e monumentos e, no 10º volume, uma extensa mostra das populações nativas.

A qualidade das fotografias foi sempre aclamada mesmo se Rufino não conste na lista nacional, africana ou mundial dos grandes fotógrafos reconhecidos. Mas. é-o, indubitavelmente.

Rufino_LM_residGovern.jpg

 

 

Hoje, a colecção pertence ao ex Banco Nacional Ultramarino e raras vezes aparece completa no comércio alfarrabista. Quando tal acontece, os preços são consideráveis (entre 750 e 1000 euros nas consultas que fiz) o que muito me entusiasmou porquanto fui pacientemente reunindo os volumes entre Dezembro de 2007 e Setembro de 2009. Tinha fixado uma tabela máxima por volume (€ 50) e consegui terminar o lote um pouco abaixo do limite que me tinha imposto, sobretudo porque consegui que todos os tomos estivessem em “bom” ou “muito bom” estado de conservação.

Para além do interesse estético, o que me interessou sempre foi o valor documental e, sobretudo, a confirmação do que sempre defendi: Moçambique é um país construído por portugueses, sul-africanos, indianos, alguns chineses, gregos, italianos e alemães. Deveria referir os africanos, isto é os negros indígenas que alombaram com o trabalho mas penso que isso está implícito sempre que se fala de África.

Também me pareceria interessante fazer notar o esforço de muitos mestiços que nos anos da construção do “Império” eram importantes (por todos, em Moçambique, a família Albasini) estatuto que foram perdendo durante o apogeu da colónia-província ultramarina. Para isso, portugueses e indianos contribuíram fortemente mas não é desdenhável a contribuição bóer, a provar que durante muito tempo, a mestiçagem não só não era proibida mas tinha estatuto social e económico. Anda por aí muito aprendiz falhado de anti-racista que desconhece que o apartheid foi obra de anos posteriores. Não é que antes não houvesse diferenciação racial (com pesadas e vis consequências) mas esta tal qual se tornou política oficial da RAS tem origem nos finais da primeira metade do século XX.

E, mesmo que Moçambique não fosse um paraíso racial (longe disso), as diferenças entre o estatuto de brancos e não brancos era algo de infinitamente menos ignominioso do que em muitas outras zonas de África. Não desculpa nada mas não pode ser esquecido.

 

* nas fotografias que se juntam aparece a palavra “mufano” para significar criado jovem. É uma adaptação tola. aportuguesada e masculinizada do termo ronga “mufana” que significa rapaz, jovem. O feminino, no mesmo vernáculo, é tombazana.

   

 

 

publicado por d'oliveira às 10:06
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