Sexta-feira, 6 de Março de 2015

Estes dias que correm, 326

figure-d-ancetre-luba.jpg

RIP

 

Descansa em paz!, ou “requiescat in pace, como diziam os nossos longínquos avós. Como se a vida fosse e, de facto é, uma árdua tarefa, um esforço inglório e sem fim. Há um provérbio bantu que assevera que, quando nasce, o homem só tem uma certeza: morrerá. Não é pessimismo mas apenas uma maneira de dizer que esse homem que atravessará a vida protegido pelos seus antepassados, antepassado será de outros e protege-los-á pela eternidade fora.

Tudo isto vem a propósito do Iduíno (assim mesmo!) Lopes que finalmente morreu depois de quase três anos de como devido a um avc manhoso que o terá prostrado no início de uma medonha madrugada.

Iduíno Lopes, um funcionário ignorante não aceitou que o pai emigrado nas Américas chamasse ao pimpolho Edwin. Ninguém se lembrou que há o portuguesíssimo Eduíno (e até já vi Heduíno) pelo que o funcionário burro e nacionalista grafou com I e já está. Convém dizer que o Iduíno se estava nas tintas, tanto lhe fazia, até era original...

Trazido para Portugal muito pequeno, o Iduíno foi obrigado a permanecer cá devido à guerra que entretanto rebentara. Estudou e formou-se em Coimbra em Medicina depois de uma pequena tentativa de cursar Letras ao lado do Zeca Afonso de quem era amigo e colega.

Uma vez obtido o canudo, desandou para os Estados Unidos onde tinha quase toda a família. Portugal, o Portugal do fim dos anos cinquenta, pesava-lhe toneladas sobretudo porque o Iduíno era democrata e da “oposicrática” como se dizia.

Uma vez em Boston começou a trabalhar na área da psiquiatria hospitalar. Apanhou com centenas de veteranos da Coreia e vinham daí os seus vastos conhecimentos do stress de guerra. Ao mesmo tempo começou a trabalhar com heroinómanos e fez parte da primeira geração de médicos que se socorreu da metadona.

Nos EUA, fazia parte dos círculos que se opunham ao regime português e foi por isso que quando Soares foi à América falar da política do PS para Portugal que ele esteve com aquele como anfitrião e intérprete não oficial. A tal respeito contava história deliciosas: como Soares não dizia uma palavra de inglês, um dos seus acompanhantes que dominava a língua “suavizava” as declarações do líder socialistas tornando-as aceitáveis para as plateias americanas pouco dadas a esquerdismos desnecessários (como logo a seguir se viu, quando o “socialismo foi metido na gaveta” nos governos soaristas. E no programa do partido, claro.) Um êxito tremendo. Afinal era bom soares não percber patavina de inglês.

Uma vez Portugal em democracia, eis que o Iduíno e a Mimi entendem regressar à pátria. Meu dito e meu feito. Fizeram as malas, as contas com os hospitais em que trabalhavam os dois (a Mimi era uma extraordinária antemo-patologista) e, com os filhos, ala que se faz tarde. Aterraram no Porto, não sei se por acaso ou por escolha pensada. A verdade é que chegaram aqui ao bairro e rapidamente se deram a conhecer. Ou melhor: foi o Iduíno quem fez a despesa da festa. O raio do homem falava alto, demasiado alto e falava muito. Em pouco tempo toda a gente o conhecia. Porque era alegre, bom profissional (já lá iremos) e adorava conversar.

Chegava ao café onde ambos líamos os jornais e sentava-se numa mesa perto. Eu fingia que nem o ouvia mas, um dia, a Maria José Pacheco sussurrou-lhe que eu me formara em Coimbra. Tanto bastou para o Iduíno que era “coimbrinha” até ao sabugo, me começar a falar. Eu bem protestava que não era da Académica (e não sou) que não vertia a mínima lágrima ao ouvir as baladas coimbrãs (e não verto) que achava a Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra uma chatice, a praxe uma aberração mas nada disso comovia o meu amigo. Para ele o vírus coimbrão era eterno e pacífico e ninguém lhe era imune.

Quando soube que eu tinha sido condiscípulo de um dos cunhados e contemporâneo de um outro, foi o fim. Começamos a descobrir dezenas de amigos comuns, a começar pelo Zeca e a acabar no Manel Alegre e no Adriano.

Depois o Iduíno fundara e dirigia o CAT onde pioneiramente introduziu (contra muita e feroz opinião) o tratamento de drogados com recurso à metadona. Um escândalo no país dos brandos costumes!

Quando me reformei passamos a ser companheiros diários de mesa nesta esplanada em que agora escrevo à sombra da sua permanente alegria, do seu vozeirão, das suas reiteradas e apaixonadas defesas das nacionalidades espanholas, da esquerda a todo o custo. O Iduíno era fidelissimamente ps mesmo quando a evidência lhe exigia mais moderação. Com uma ténue excepção: não dizia sim a tudo o que borbotava de Sócrates mesmo se continuasse a votar no PS. Não teve tempo para conhecer bem este actual governo pois há cerca de dois anos e meio foi alvo de um avc. Em coma desde então só a amizade antiquíssima da Maria José e o amor de um dos filhos (precisamente o que dos três não era médico) é que apoiavam a ideia de uma recuperação. Não o fui ver nunca. Não suportava a ideia de um Iduíno prostrado numa cama sem fala, sem um olhar, sem um gesto. Preferi, quiçá egoisticamente, manter a recordação de um sanguíneo bem disposto a que nem uma calvície forte fazia parecer octogenário.

Morreu no sábado passado. Deixa filhos, amigos inconsoláveis, uma obra e apodo de dr Heroíno dado por doentes que ele tentou abnegadamente salvar ou pelo menos tornar menos infelizes.

Olho o jardim que tantas vezes, centenas de vezes, comtemplámos e penso nele como um antepassado benéfico que nos protegerá doravante. Poucos se podem gabar de tanto.

Descansa em paz, velho amigo. E que as tuas cinzas repartidas entre a terra de uma aldeia da Beira baixa e de um campo da Nova Inglaterra façam frutificar ervas e árvores, espigas e frutos, Iduíno, homem bom e homem de bem. 

 

* na gravura: figura de ntepassado /etnia Luba).

publicado por d'oliveira às 10:40
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2021

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


.posts recentes

. estes dias que passam 62...

. au bonheur des dames 446

. o leitor (im)penitente 22...

. Estes dias que passam 323

. ...

. Estes dias que passam 385

. Estes dias que passam 384

. Estes dias que correm 328

. Estes dias que correm 328

. o leitor (im)penitente 20...

.arquivos

. Dezembro 2021

. Novembro 2021

. Maio 2019

. Janeiro 2019

. Setembro 2018

. Maio 2017

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Agosto 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Janeiro 2015

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds

Em destaque no SAPO Blogs
pub